Apresento, a seguir, o texto redigido no Dicionário dos Filósofos de Denis Huisman sobre um dos maiores filósofos da história, Karl Marx:
Nascido em família de origem judaica, houvera a pouco
convertida ao protestantismo e imbuída do espírito liberal das Luzes. Marx
nasceu em Trier, cidade da Renânia recentemente anexada à Prússia, reino
constitucional conservador e autoritário. Apesar de alimentar ambições
poéticas, estuda direito e filosofia num meio em que dominam os jovens
hegelianos de esquerda; conclui esses estudos em 1841 defendendo uma tese de
doutorado de filosofia sobre A diferença da Filosofia da Natureza em
Demócrito e Epicuro.
Sua
carreira é antes de qualquer coisa a de jornalista. Esse trabalho é inseparável
de uma ação militante de que se faz instrumento, inspirando círculos
revolucionários, como a Liga dos Comunistas, em 1847-1851. Morre em Londres em
1883; em todas as suas atividades, contara com a amizade, a ajuda e a
colaboração de Engels, que conheceu em Paris em 1844.
Apesar de
nascer intelectualmente (como todos os seus contemporâneos alemães) em solo
hegeliano, Marx nunca foi hegeliano.
Marx ataca,
dentre outras coisas, a abstração filosófica de Bruno Bauer (que opõe o
espírito à massa e ignora a materialidade das circunstâncias e da organização
social).
No início
de 1844, Marx acabara de conhecer, em Paris, o movimento operário, descobrindo o comunismo,
ao qual adere imediatamente; e foi no ensinamento recente de Feuerbach que
encontrou os conceitos que possibilitaram pensar
filosoficamente essa vontade atuante de emancipação completa do humano real em
sua vida social pela destruição da propriedade privada.
Marx insere
a propriedade privada numa relação mais fundamental; essa relação define a
existência do trabalho alienado, no qual o trabalhador é desapropriado de seu
produto para a produção do capital e sua reprodução, necessária à manutenção do
lucro, sendo também desapossado da maioria de suas possibilidades humanas e da
totalidade de sua liberdade; termo da evolução do capital, a abolição da
propriedade privada é o fim dessa alienação operária, mas, também, de toda a
alienação humana. Essa análise repousa numa antropologia filosófica, que vê no
humano um ser que se aliena de si mesmo em sua história coletiva, mas que se
engendra como humano através de seu trabalho humano, no decurso dessa história
universal, para chegar à realização de um humano inteiramente emancipado e
totalmente humano.
Marx, salienta que, Feuerbach – apesar de seu materialismo – fica num debate teórico
com a alienação religiosa e não vê que o idealismo, tanto nessa alienação
quanto em sua denúncia, é apenas resultado das bases materiais da vida social;
ele só vê o ser humano como ser essencialmente passivo, e só como indivíduo
isolado ou como gênero universal, sem o entender em sua existência histórica e
social, em sua realidade, que é o conjunto das relações sociais; não vê que a
atividade crítica real só pode ser a atividade crítica na prática, a atividade
revolucionária. O materialismo antigo da sensação, do indivíduo isolado e da
humanidade em geral, exprimiu o ponto de vista da sociedade burguesa; o novo
materialismo exprime o ponto de vista da sociedade humana ou da humanidade
socializada. A experiência do movimento operário em sua forma comunista, torna
caduca a análise abstrata da alienação.
Tal discurso, ou seja – o da análise abstrata da alienação – nem é revolução, nem mesmo denúncia, mas apenas justificação, e que, desse modo, traduzem e defendem os interesses da burguesia perante o proletariado. Sua suficiência e independência aparentes e proclamadas, resultam de uma separação entre a atividade intelectual e a atividade prática produzida pela oposição entre o capital e o trabalho e a divisão do trabalho no capitalismo.
De maneira geral, essa ideologia, em sua convicção de que a consciência determina a vida, é consequência das relações sociais que isolam a consciência da vida, o indivíduo da sociedade econômica e as ideias de suas condições materiais, a ponto de esquecerem que é a vida que determina a consciência em seus conteúdos reais, e que constituem a alienação de querer simplesmente construir e mudar a consciência do real, sem mudar o real; vincula inteiramente as ideias e os atos aos interesses de classes, mas também descreve a história: as relações sociais em um tempo e em um lugar dados, são definidas pelos modos de produção desse tempo e desse lugar. Os modos de produção são determinados pelo estado de desenvolvimento e o seu modo de concretização. Então, surgem necessariamente contradições, porque as forças produtivas, em seu desenvolvimento, opõe-se ao modo de produção que as gerou, impondo um novo modo de produção, como mostra a passagem da manufatura para a indústria, do trabalho manual para a máquina.
Tal análise de produção, permite compreender as etapas da história: sociedade primitiva, escravidão antiga, feudalismo e capitalismo burguês; a concentração do capital acaba por privar de conteúdo o princípio da propriedade privada, e que o desenvolvimento das forças produtivas pelo capital é tal que, tornar-se-á caduco o sistema atual de separação entre a propriedade dos meios de produção e a posse da força de trabalho, de divisão da sociedade em classes e de divisão do trabalho em atividades especializadas, unilaterais e mutiladoras: nesse período do capitalismo, é possível uma ação revolucionária.
Essa ação,
que é uma luta, é o cerne do Manifesto do Partido Comunista (1848).
O malogro
dos movimentos revolucionários, as vitórias da reação e o triunfo do
capitalismo, impõem tarefa tripla.
A tentativa
e o fracasso da Comuna de Paris, obrigam-no a voltar-se para a dimensão
propriamente política da ação revolucionária operária e, levam-no a insistir na
necessária radicalização que, implica a apropriação do poder estatal pelos
operários na ditadura do proletariado e sua indispensável centralização, com
exclusão da multiplicidade das iniciativas anarquistas.
Não é apenas com o conceito dessa luta que podemos compreender o mundo, e nela transformá-lo, mas é nela que podemos formar nossa compreensão do mundo e com seu conceito transformá-lo. Ser marxista é tomar essa luta como referência e nela inserir-se para pensar a história da sociedade, mas, também, para pensar seu próprio pensamento da história e da sociedade, e ainda para pensar, se não o mundo, pelo menos seu próprio pensamento do mundo: para o burguês, é perceber que sua reivindicação de direitos é sua necessidade de classe e que seu slogan de emancipação universal é seu slogan de classe. Para o economista é saber que sua análise é uma análise de classe.
Essa luta
não tem meio-termo: não há lugar para refúgio nem harmonização; a liberdade da
burguesia é uma ditadura. Pois as classes distinguem-se umas das outras e
diferenciam-se em si mesmas em função das relações de produção. A tarefa
prática é realizar, em dado momento, uma unidade de elementos relativamente
diferentes no âmbito da luta principal; a tarefa teórica é inferir dessa
complexidade o arcabouço da luta em torno da relação de produção dominante.
Portanto,
para compreender, controlar e orientar a luta de classes, deve-se estudar a
relação de produção dominante no momento: o capitalismo.
Marx, com
alguns comunistas de seu tempo, percebe no mundo econômico que o cerca a
própria essência do capital, modo histórico de produção que, em sua formação,
sua reprodução e seu desenvolvimento, é apropriação de uma parte da produção de
um trabalho que é o trabalho assalariado. O próprio funcionamento da
propriedade privada no capitalismo, é uma acumulação condenada ao esgotamento ou
uma acumulação, que se baseia numa apropriação suficiente para a sua reprodução.
Nem tudo o
que é produzido pela força de trabalho deve reverter para o salário, o que
corresponde à mais-valia, realizada sobre o uso do trabalho; esta gera o lucro,
que não vem do capital, mas da parte do trabalho não-remunerada: capital
é exploração. A taxa de lucro é tanto mais elevada, quanto maior a
exploração garantida pelo capital variável: menor lucro relativo com maior
quantidade de meios de produção. A taxa de lucro tende a diminuir com o
crescimento inelutável dos investimentos e só pode ser mantida pelo crescimento
correlativo da exploração.
Essa
análise implica que a força de trabalho só pode ser tratada como mercadoria:
essa é a definição específica do assalariado. Conclui-se, que a partir disso,
só poderá haver um agravamento das crises do capital, da exploração capitalista
e, por consequência, de luta de classes, cuja consequência é a abolição da
propriedade privada dos meios de produção, o que não significa a abolição total
da mais-valia, mas sim da apropriação privada da mais-valia: isso
permite-nos exigir uma redução do tempo da necessidade (o trabalho) para que
haja cada vez mais lugar para o tempo da liberdade e considerar o
reconhecimento completo da necessidade após a plena remuneração do trabalho.
Produzindo
seu objeto, o humano produz-se a si mesmo. Se a unidade de troca econômica é o
tempo de trabalho e se o trabalho é o fator determinante da produção, a
produção não se reduz ao trabalho economicamente delimitado. O ser humano é um
ser histórico e social definido por pertencer a um modo determinado de
produção. Nessa história da produção e na sua forma capitalista, o humano,
tratado como simples força de trabalho, é uma mercadoria, a produção efetua-se
na forma de trabalho alienado e a existência atual é pensada e apresentada como
realização de leis eternas, que a explicam e a justificam, sem concluir por seu
fim e nem levar à sua transformação.
A razão da evolução das coisas, longe de estar ligada na lógica da forma dessas coisas, mas no movimento de seu conteúdo: conteúdo material de coisas materiais. O problema não é dizer o que é o pensamento, mas sim saber por que isto ou aquilo é pensado, a crença numa substância espiritual distinta da matéria ou em uma idealidade diferente da materialidade é uma crença histórica e socialmente determinada em razão das condições materiais de existência.
A análise dos discursos que se ouve, a investigação das condições daquilo que se vê. Essa crítica dá origem a uma filosofia prática que não toma a ação apenas como fim, mas, também, como objeto de análise e meio de conhecimento. É por isso que, além dos legados políticos bem conhecidos, suas teses, apesar das ressalvas, tornaram-se elementos de todas as ciências sociais e dados de todas as filosofias do engajamento.
HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos. Trad.: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
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